VOZES DAS ONDAS CURTAS: AGUINALDO JOSÉ DE SOUZA FILHO

Se alguém perguntasse sobre a possibilidade de trabalhar em jornalismo em cidades como Londres, Praga, Estocolmo e Washington, a resposta seria sim, enfatizando que a função certamente seria a de correspondente internacional. Entretanto, uma atividade jornalística que poucos conhecem e que foi trilhada por alguns profissionais privilegiados foi a de locutor e apresentador em emissoras internacionais que transmitiram programas em português em ondas curtas. Um deles, entre as décadas de 1960 e 1980, foi Aguinaldo José de Souza Filho que trabalhou justamente nas cidades citadas.
Catarinense de nascimento, Aguinaldo iniciou sua carreira em frente aos microfones nas rádios Relógio e Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro (RJ). Em 1962, quando a Voz da América reiniciou suas transmissões em português para o Brasil, Aguinaldo fez os testes que a emissora patrocinou na capital carioca, mas esbarrou na falta de experiência. Em seguida, passou alguns meses trabalhando nas rádios Tamoio e Continental, sempre como locutor e apresentador. O sonho de ser locutor em uma emissora internacional não havia ficado para trás e uma estratégia foi posta em ação: passou a escrever para todas as emissoras, colocando seu nome à disposição. Um dia, recebeu resposta da Rádio Suécia Internacional que estava recrutando locutores no Brasil. Fez os testes, mas ficou em 2º lugar. A sorte, porém, estava ao seu lado. O 1º colocado não gostou do salário e Aguinaldo ficou com a vaga.
NA RÁDIO SUÉCIA, AS VOZES DOS DEUSES

Em março de 1966, Aguinaldo embarcou para Estocolmo. Trabalharia como broadcasting-journalist por um ano. Na emissora, passou a ser o responsável pelo programa que respondia as cartas dos ouvintes. Mas o que mais ficou em sua lembrança foi a criação de um radioteatro, onde fazia várias vozes. “Eu fazia todos os papéis dos deuses de Valhalla, o que deixou o engenheiro de som da emissora impressionado”, recorda. O emprego durou alguns meses.
NARRAÇÕES E JAZZ NA BBC
Entre muitas aventuras pela Europa, com destaque para viagens de carona, passagens por Paris e Lisboa, Aguinaldo chegou a Londres. Na capital inglesa, consegui fazer free-lancer para a BBC de Londres. Foram tantas narrações que Ivan Lessa o apelidou de “A Voz de Ouro da BBC”. Após breve retorno ao Brasil, o apresentador voltaria a Londres, onde acabou sendo contratado. Criou um programa de jazz, que foi bem recebido pelos ouvintes de ondas curtas. Na época, eram seus colegas na emissora: Ivan Lessa, Jáder de Oliveira, Marianna Zappert, Renato Machado, entre outros.
TRADUÇÕES SEM NEXO NA RÁDIO PRAGA
Antes de trabalhar em Londres, no entanto, Aguinaldo havia passado uma temporada na Suíça como assistente de um instalador de aparelhos de som, que o havia recomendado ao Partido Comunista Checo, uma vez que se autointitulava comunista. Também havia pego um trem até a capital da então Tchecoslováquia, onde procurou emprego com o chefe dos programas em português, Julius Petrik que, solenemente, ignorou a carta de recomendação ao Partido Comunista. Assim, após algum tempo na BBC, onde economizaria para adquirir um automóvel, partiu para o país da Cortina de Ferro. Em Praga, Aguinaldo passou 364 dias. Trabalhava como locutor, após receber um texto “massacrado e sem nexo” que tradutoras do tcheco passavam para o português. Consistia, ainda, de sua rotina, entrevistar algum estudante brasileiro que visitava a capital tcheca. Geralmente, era alguém que havia sido torturado pela ditadura militar brasileira. Segundo ele, todas as tentativas de fazer programas mais descontraídos eram rechaçados. “Nnão queremos idéias capitalistas”, afirmavam os tchecos.
A VOLTA PARA A BBC
Da Tchecoslováquia, Aguinaldo de Souza voltou para Londres. Novamente, passa a fazer narrações para programas produzidos por Lessa e Jader de Oliveira. Como havia casado com uma tcheca, sua esposa também passa a atuar na BBC, no serviço em língua tcheco.
OS 14 ANOS DE VOZ DA AMÉRICA

Após três anos em Londres, Aguinaldo iniciou contatos com a Rádio Japão, já que “rotina não se coaduna com alma de cigano”. Certo de que a vaga seria sua, iniciou viagem ao Japão, passando pelos Estados Unidos. Já em solo americano, um novo contato mostrou que a vaga já havia sido preenchida na emissora de Tóquio. O jeito foi contactar a Voz da América. Inicialmente, não havia vaga, mas, no início de 1974, o jornalista Hélio Costa estava deixando a emissora para trabalhar na Rede Globo, o que determinou a contratação do apresentador.
O CLUBE DE OUVINTES

Em 1977, o mesmo locutor que tirou a vaga de Aguinaldo na Rádio Japão, acabou fazendo, com ele, dupla na apresentação da transmissão matinal da Voz da América. Era Ricardo André Gardeazabal Neves. Os dois eram âncoras. Durante praticamente todo o tempo em que esteve na Voz da América, Aguinaldo apresentou o Clube dos Ouvintes, onde as cartas, postais e relatórios de sintonia eram respondidos. Em 1977, o Clube dos Ouvintes era irradiado, aos domingos, entre 7h e 8h, no horário de Brasília, nas freqüências de 9765, 11730, 15195 e 17830 kHz. O apresentador também recorda os programas que falavam sobre carros e tecnologia, além da cobertura que fez do lançamento dos primeiros ônibus espaciais, em Cabo Canaveral. Na Voz da América, Aguinaldo atuou ao lado de profissionais como Ricardo André Gardeazabal Neves, José Roberto Dias Leme, Pedro Kattah, Guilherme de Souza, José Américo do Vidigal, Hélio Costa, Joseph Mara Nogueira, entre outros. “A experiência de trabalhar em estações internacionais de ondas curtas nos levava, além da pesquisa, coleta e mera tradução das notícias, a assimilar uma perspectiva profissional mais ampla”, ressalta. Acrescenta que a divulgação de informação errônea ou tendenciosa “fomenta a discórdia” e que o profissional de rádio deve ter o “máximo cuidado com o que vai divulgar, por mais inocente que possa parecer”. Depois da Voz da América, o apresentador atuou como dublador, locutor da TNT, até voltar ao Brasil. Atualmente, Aguinaldo de Souza Filho reside e trabalha em Florianópolis (SC).
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