Leitura crítica: a Albânia como exemplo

Penso que uma das qualidades de qualquer leitor, telespectador e ouvinte de rádio é fazer uma leitura crítica daquilo que tentam nos passar. Quais os interesses dos veículos “a” ou “b” em noticiar um fato desta ou daquela forma?
Um bom exemplo que tomo é a forma como a grande mídia sempre noticiou a Albânia na época do socialismo. Para alguns veículos ocidentais, o país dos Balcãs era “uma grande aldeia com cabras pastando à vontade”, com um regime ditatorial sob a batuta de um lunático, como se só o socialismo abrigasse este tipo de político. A referência, com a peculiar ironia ocidental, era para o fato do país ter vocação agropastoril e por Enver Hoxha ter comandado a Albânia após a 2ª Guerra Mundial até meados dos anos 80.
Durante muito tempo, fui ouvinte da programação em português da Rádio Tirana. A emissora abrigou em sua sede líderes e políticos do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Trabalharam na capital albanesa, em frente aos microfones da Rádio Tirana, nomes como Ana Rocha, Edson Menezes da Silva, Olívia Rangel e Bernardo Joffily. Da programação, lembro-me pouco dos assuntos comentados, mas a tônica, sem dúvida, era a política socialista. Em 1988, recebi meu cartão de confirmação QSL da programação em língua portuguesa da Rádio Tirana (reproduzido acima). Ao que tudo indica, a emissora também tinha uma versão para português de Portugal (áudio reproduzido abaixo).
A crônica de Bernardo Joffily, escrita no ano passado, quando voltou à capital albanesa e encontrou o país após vários anos de choque liberal, mostra o contraponto para quem noticia com o intuito de denegrir um país, seu povo e seu governo. O então “país de cabras”, na versão irônica ocidental, possuía um complexo têxtil que, agora, de acordo com Joffily, virou cortiços para sem-tetos. Se a Albânia nunca exportou nada na época socialista, nos dias atuais é conhecida por ser a terra natal de gangues que atuam em cidades como Paris, como retratou o cineasta Luc Besson, recentemente, em Busca Implacável.
A lição é ler e ouvir com espírito crítico sempre. O que era para parecer muito ruim talvez não era bem aquilo. A propósito: quem se preocupa com a Albânia arruinada dos dias atuais?



